Revisão sistemática da Unesp conclui: creatina não tem efeito anti-inflamatório comprovado em humanos.
Análise de oito ensaios clínicos randomizados, apoiada pela Fapesp, encontrou diferenças mínimas e não significativas nos biomarcadores inflamatórios.
Fonte: Folha · Foto: Reprodução
A creatina, um dos suplementos mais populares entre frequentadores de academia e atletas, parece não ter o efeito anti-inflamatório que muitos imaginam. A conclusão é de uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Unesp, publicada em fevereiro na revista científica Frontiers in Immunology.
O estudo analisou dados de oito ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo para investigar os efeitos da creatina sobre biomarcadores inflamatórios. Apoiado pela Fapesp, foi realizado no Centro de Estudos de Revisão Sistemática na Saúde Cardiovascular e Metabólica da Unesp em Marília.
“Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos.”
— Vitor Engracia Valenti, coordenador do estudo — Unesp
O que os dados mostram
Biomarcadores avaliados — resultados
• Proteína C reativa (PCR): redução média de apenas 0,41 mg/dL — “magnitude pequena”, sem significância estatística ou clínica
• Interleucina-6 (IL-6): redução mínima, também sem significância estatística ou clínica
• Em atletas com protocolo de alta dose (20g/dia por 5 dias), houve reduções em PGE2, TNF-α e IL-1β após exercícios extenuantes — mas esse efeito não se repetiu em outros perfis populacionais
Estudos com pacientes com osteoartrite e com idosos não encontraram reduções significativas em marcadores inflamatórios mesmo após semanas de suplementação. Em alguns casos, as melhorias foram atribuídas ao próprio exercício físico — não à creatina.
Segurança do suplemento
Apesar dos resultados sobre inflamação, a revisão concluiu que a creatina apresenta bom perfil de segurança em diferentes populações e contextos. Atletas com doses elevadas (20g/dia), indivíduos saudáveis, pacientes com osteoartrite e idosos não relataram efeitos adversos relevantes.
“A creatina pode favorecer a força e o desempenho muscular durante o exercício e, em alguns contextos, pode contribuir indiretamente para a funcionalidade.”
— Vitor Engracia Valenti
Importante — o que muda na prática
Os achados não mudam as recomendações atuais sobre o uso da creatina, que continua sendo considerada segura para a maioria das pessoas e pode trazer benefícios ao desempenho físico.
Antes de usar, porém, o suplemento deve ser orientado por um profissional de saúde — médico, nutricionista ou educador físico. “Cada pessoa tem uma necessidade diferente”, recomenda Valenti.
“A grande importância dessa revisão é mostrar que ainda há poucos ensaios clínicos sobre o tema e provocar a comunidade científica a avançar nessa área.”
— Vitor Engracia Valenti
O artigo completo está disponível em: frontiersin.org
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