Por Rafael Oliveira Espinhel
Presidente Executivo da ABCFARMA
Há discussões que começam no campo econômico, mas rapidamente revelam uma dimensão muito maior. O crescimento das apostas online no Brasil é uma delas.
Ao lado de entidades representativas de diferentes setores da economia, tenho acompanhado esse debate e procurado compreender seus efeitos para além das cifras movimentadas pelas plataformas. O que está em questão não é apenas quanto o brasileiro aposta. É o que deixa de fazer, de comprar, de pagar e, em determinados casos, como passa a viver em razão da aposta.
A Pesquisa Nacional Apostas Online no Brasil, conduzida pelo IFEPEC em parceria com o NEIT/Unicamp e o Instituto Axxus, ajuda a dar concretude a essa discussão. O estudo reúne duas perspectivas complementares: ouviu 1.500 apostadores das classes C, D e E, distribuídos pelas cinco regiões brasileiras, e 2.020 profissionais de saúde mental.
Alguns números são difíceis de ignorar.
Entre os apostadores entrevistados, 81% possuem dívidas. Entre aqueles que estão endividados, 74% têm pagamentos atrasados. Mais importante ainda é observar onde esse comprometimento financeiro começa a aparecer: 41% relataram redução na compra de itens essenciais, incluindo alimentos, medicamentos e produtos de higiene; 48% reduziram gastos com material escolar ou manutenção da casa.
Para quem atua no setor da saúde, o dado sobre medicamentos merece atenção especial. Quando a aposta começa a disputar espaço no orçamento doméstico com alimentação, higiene e tratamento de saúde, a discussão deixa definitivamente de estar restrita ao entretenimento.
Há outro dado que talvez ajude a compreender a dimensão humana do problema: 97% dos entrevistados disseram que gostariam de apostar menos ou parar, mas apenas 9% acreditam que conseguirão fazê-lo.
Isso muda a perspectiva do debate.
Não estamos falando simplesmente de uma decisão individual de consumo. Em parte dos casos, estamos diante de comportamentos que repercutem sobre endividamento, relações familiares e saúde. Entre os entrevistados, 62% relataram problemas familiares relacionados às apostas e 51% disseram ter apresentado problemas de saúde, como estresse, ansiedade, insônia e tristeza.
A pesquisa com os profissionais de saúde acrescenta uma dimensão ainda mais preocupante. Entre os pacientes que apostam acompanhados pelos profissionais entrevistados, são relatadas comorbidades importantes, incluindo depressão, transtornos de ansiedade e transtornos relacionados ao uso de substâncias. O próprio estudo chama atenção para uma relação de retroalimentação: problemas de saúde mental podem favorecer o comportamento de apostar e, ao mesmo tempo, as consequências das apostas podem agravar esses transtornos.
Para nós, da ABCFARMA, existe uma responsabilidade não apenas institucional mas social. As farmácias estão presentes diariamente na vida de milhões de brasileiros e conhecem de perto uma realidade elementar: o orçamento das famílias é finito.
Quando falta recurso para um medicamento, para a alimentação ou para uma necessidade básica, o impacto não aparece apenas nas estatísticas econômicas. Ele aparece na vida das pessoas.
É por isso que considero tão importante trazer esse debate para além dos números.
Por trás de cada percentual apresentado pela pesquisa existe uma família, uma escolha que deixou de ser feita, uma conta que não foi paga ou uma pessoa que pode estar precisando de ajuda.
Esse talvez seja o ponto mais importante de todos.
Acesse a pesquisa na íntegra e conheça os dados sobre os impactos econômicos, sociais e de saúde das apostas online no Brasil.
Fonte: Abcfarma
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