Sete em cada dez produtos vendem menos com inflação e inadimplência no Brasil
Levantamento da NielsenIQ mostra que a retração do consumo, que começou em 2025, se intensificou no início de 2026 e já afeta diretamente o comportamento de compra das famílias brasileiras — um movimento que também repercute no varejo farmacêutico.
A inflação pode ter desacelerado em alguns indicadores, mas o consumidor brasileiro continua sentindo seus efeitos no bolso. Pressionado pelo custo de vida elevado, pelo endividamento e pela necessidade de fazer o orçamento fechar no fim do mês, o brasileiro está comprando menos, planejando mais e mudando a forma como consome.
Um levantamento da consultoria NielsenIQ revela que 70% das categorias de bens de consumo de massa registraram retração em volume no primeiro trimestre de 2026, em comparação ao mesmo período do ano anterior. O movimento é uma continuidade da desaceleração observada desde meados de 2025 e reflete uma combinação de fatores estruturais — não apenas eventos pontuais ou mudanças recentes de comportamento.
Um novo patamar de preços, não uma nova inflação
Segundo a pesquisa, um dos principais fatores por trás da retração é o impacto acumulado da inflação dos últimos anos. Mesmo com a desaceleração recente de preços em algumas categorias, os reajustes acumulados desde a pandemia continuam pesando sobre o orçamento das famílias.
O café, por exemplo, está 248% mais caro do que em 2019. Óleo e azeite acumulam alta de 118%, enquanto o arroz avançou 78% no mesmo período.
“A inflação subiu tantos degraus nos últimos anos que reduções de curto prazo não necessariamente levam ao aumento de volume. O consumidor já adequou o comportamento de compra dele para fazer a conta fechar.”
— Especialista da NielsenIQ
Endividamento segue comprimindo a renda das famílias
A pressão sobre o consumo não vem apenas dos preços. O estudo aponta que o endividamento, que atinge a maior parte da população, continua sendo um dos principais fatores por trás da cautela dos consumidores. A popularização do Pix e dos meios eletrônicos de pagamento ocorreu paralelamente ao crescimento do endividamento das famílias — o Brasil encerrou 2025 com mais de 253 milhões de cartões de crédito ativos, uma média superior a um cartão por habitante.
Na prática, o crédito tem funcionado como uma extensão da renda para muitas famílias, ajudando a cobrir despesas básicas no curto prazo, mas ampliando os desafios financeiros nos meses seguintes.
A disputa agora é pelo bolso do consumidor
A renda disponível para gastos não essenciais está cada vez menor. Em média, os brasileiros destinam 71% da renda mensal para gastos básicos — contas domésticas, alimentação, produtos de consumo, prestações e dívidas. Nas famílias de menor renda, essa fatia sobe para 75%.
Com pouco espaço sobrando no orçamento, a competição pelo consumo das famílias deixou de acontecer apenas dentro das categorias de produto: a disputa, segundo o estudo, passou a ser pelo espaço no bolso do consumidor como um todo, e não apenas pela fatia de mercado dentro de cada segmento.
Lazer e alimentação fora de casa são os primeiros cortes
Quando precisa economizar, o consumidor costuma começar pelas despesas consideradas mais flexíveis. Entre os lares endividados, 36% afirmam ter reduzido gastos com alimentação fora do lar nos últimos meses, e 34% dizem ter cortado gastos com lazer fora de casa.
Planejamento de compras se torna regra
A resposta das famílias ao cenário de aperto não tem sido apenas cortar gastos, mas também comprar de forma mais estratégica. Atualmente, 80% dos consumidores afirmam planejar suas compras antecipadamente, enquanto a parcela que faz compras semanais também cresceu em relação ao ano anterior.
Ao mesmo tempo, quase metade das categorias avaliadas perdeu penetração nos lares brasileiros, e a maioria registrou queda na frequência de compra em 2025 — um sinal de que o consumidor está combinando pesquisa de preço, escolha de canais e promoções para fazer o orçamento caber.
E-commerce ganha espaço na reorganização do consumo
Outra mudança estrutural identificada pela pesquisa é o fortalecimento do comércio eletrônico na jornada de compra. A maior parte dos consumidores já compra bens de consumo rápido pela internet, e uma fatia relevante afirma deixar de comprar em lojas físicas para realizar compras online — um movimento que já se consolidou como parte da estratégia de economia das famílias, e não mais como algo complementar.
Conclusão do estudo: a retração observada no varejo não pode ser explicada por um único fator. Ela resulta da combinação entre inflação acumulada, endividamento, custo de vida elevado e mudanças de hábito — uma recalibração de consumo que deixou de ser uma reação temporária para se tornar uma estratégia permanente das famílias brasileiras.
O cenário de retração no consumo e aumento da inadimplência também impacta diretamente farmácias e drogarias, que sentem o reflexo tanto na queda do ticket médio quanto na maior seletividade do consumidor na hora de comprar. Entender essas tendências de mercado é essencial para o planejamento estratégico de associados do Sincofarma/SP, que conta com canais de apoio para orientar empresários do setor em decisões de gestão e adequação ao cenário econômico.
Fonte: Levantamento NielsenIQ, com reportagem original de Rebecca Crepaldi publicada na Exame em 24 de junho de 2026.
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